27 de outubro de 2026 23°C São Paulo, SP
Assine
Notícias

Gasolina com 35% de etanol: governo libera início dos testes no Brasil

Ministério de Minas e Energia publicou portaria que autoriza testes de gasolina com 35% de etanol anidro no Brasil a partir da próxima semana.

AutoRodas 18 de setembro de 2026 Atualizado em 18 de setembro de 2026 4 min de leitura

Portaria publicada no Diário Oficial autoriza cronograma de avaliação da gasolina E35, que pode ampliar presença do etanol anidro no combustível nacional

A partir da próxima semana, o Brasil dará mais um passo na transição para combustíveis menos poluentes. O Ministério de Minas e Energia publicou no Diário Oficial da União (DOU) a Portaria que formaliza o plano de testes da gasolina com 35% de etanol anidro — percentual acima dos 32% já presentes na gasolina distribuída no país desde agosto de 2026.

Lei do Combustível do Futuro embasa a nova mistura

A iniciativa integra a Lei do Combustível do Futuro (14.993/24), legislação que tem como objetivos centrais reduzir a emissão de gases poluentes e diminuir a dependência brasileira das oscilações internacionais no preço do petróleo. O cronograma de ensaios foi aprovado pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF) e só entra em vigor após a publicação da Portaria. Ainda assim, a palavra final sobre a adoção efetiva da gasolina E35 caberá ao Conselho Nacional de Pesquisa Energética (CNPE).

Histórico de resistência à gasolina E32

Vale lembrar que a elevação anterior — para 32% de etanol — enfrentou forte oposição de fabricantes e importadoras de automóveis no Brasil. O Ministério Público Federal (MPF) chegou a solicitar a suspensão da distribuição desse combustível. Mesmo assim, a gasolina E32 circula em postos brasileiros desde 1° de agosto.

O que muda para o consumidor com mais etanol na gasolina?

Proprietários de veículos flex devem observar aumento no consumo de combustível. A explicação está no poder calorífico: a energia liberada pelo etanol quando queimado equivale a apenas 70% da energia fornecida pela gasolina pura, litro a litro. Com mais derivado de cana-de-açúcar na composição, o gasto nos abastecimentos tende a crescer.

É o que afirmam Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), e Clayton Barcelos Zabeu, professor e pesquisador na área de Propulsão Automotiva no Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).

Ajuste eletrônico dos motores modernos

Gonçalves explica que os veículos atuais possuem recursos que podem minimizar parte do impacto: “Os motores modernos têm recursos eletrônicos que operam com uma taxa de compressão intermediária para funcionar com etanol e gasolina ao mesmo tempo. Ao detectar um combustível de maior octanagem, o sistema [de gerenciamento eletrônico] poderá se ajustar automaticamente e fazer com que o motor funcione a uma taxa de compressão mais favorável”.

Especialista reforça necessidade de testes antes da adoção

Gabriel Estevam Domingos, engenheiro e diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Ambipar, empresa que atua no setor de gestão ambiental e desenvolvimento, ressalta que ensaios rigorosos são indispensáveis antes de qualquer decisão definitiva.

“Esse é um universo técnico que precisa muito se testar, principalmente com relação ao desgaste dos componentes do motor, como a correia e alguns materiais em que há mudança de pH, para saber como isso vai se comportar. Em um ponto de vista de durabilidade do motor, principalmente os motores antigos”, diz o especialista.

Carros antigos: os mais vulneráveis à mudança

Os especialistas consultados pela Autoesporte são unânimes ao apontar que veículos mais velhos correm riscos maiores. “Alguns carros antigos não estão preparados para este teor de etanol. Podem acontecer ataques a materiais e corrosões de borrachas e elastômeros”, aponta Rogério Gonçalves, da AEA. “Além disso, há suspeitas de que certos carros podem falhar por intervenção dos próprios sensores, que não reconhecem o combustível”.

Gonçalves lembrou ainda que muitos desses veículos foram calibrados para funcionar com 22% de etanol na mistura. Saltar para 35% exige cautela redobrada, inclusive no que se refere às emissões. “A solução seria disponibilizar aos donos de carros antigos um combustível com mais gasolina na mistura”, analisou Gonçalves. “O problema é que a gasolina premium é mais cara”.

Evolução do teor de etanol na gasolina brasileira

Durante muitos anos, a gasolina comum vendida no Brasil conteve 22% de etanol. Em 2015, o percentual subiu para 27,5% e permaneceu nesse patamar por uma década. Em agosto de 2025, avançou para 30%. Menos de um ano depois, a decisão de elevar para 32% foi implementada — e agora o governo já prepara testes para chegar a 35%.

Gasolina com 35% de etanol: governo libera início dos testes no Brasil
Gasolina — Foto: Reprodução