DFM: a marca chinesa que aprendeu a fabricar carros com Honda e Nissan chega ao Brasil
A DFM, braço da Dongfeng Motor, chega ao Brasil com planos de lançar 11 modelos até 2028 e negociar produção local com Nissan e Stellantis
Com quase 60 anos de história e parcerias globais de peso, a Dongfeng Motor desembarca no país com planos agressivos de vendas e produção local
Uma das maiores estatais do setor automotivo da China acaba de colocar o Brasil no centro de sua estratégia de expansão internacional. A DFM — abreviação mais acessível de Dongfeng Motor — traça metas ambiciosas: colocar pelo menos 11 modelos à venda no mercado brasileiro até o fim de 2028, incluindo veículos comerciais. Em paralelo, a empresa negocia com Stellantis e Nissan a utilização de ao menos uma fábrica em território nacional.
Das origens militares à produção de automóveis
Fundada em 1955, a Dongfeng nasceu como fabricante de caminhões de guerra e veículos militares. O contexto era o apoio da China à Coreia do Norte durante o conflito com a Coreia do Sul na década de 1950. Um dos acordos entre os dois países envolvia o fornecimento de caminhões e outros veículos militares, fabricados em uma unidade na cidade de Wuhan.
Por décadas, a empresa manteve o foco em caminhões e utilitários. O cenário só começou a mudar com o desenvolvimento econômico chinês, que empurrou a companhia para o mercado civil. Em 1992, a Dongfeng firmou uma joint venture com a antiga PSA Peugeot Citroën e deu os primeiros passos na fabricação de automóveis de passeio.
Daquele acordo nasceu a Citroën Fukang, uma espécie de “submarca” que utilizava a base do hatch francês Citroën ZX com outro nome. Foi a primeira investida da montadora fora do segmento de veículos comerciais — embora esses ainda respondessem pela esmagadora maioria das vendas internas.
Joint ventures que transformaram a empresa
O governo chinês autoriza suas estatais a estabelecer mais de uma parceria com montadoras estrangeiras. A Saic, por exemplo, firmou acordos com Volkswagen e General Motors. A recém-chegada Baic criou a Beijing Hyundai. Seguindo essa lógica, a Dongfeng anunciou em 2003 três parcerias simultâneas: com Honda, Nissan e Kia.
O modelo de operação era direto: as montadoras estrangeiras cediam plataformas e conhecimento técnico, enquanto a Dongfeng se encarregava da produção e da distribuição dentro da China. O resultado foi expressivo. Entre 2003 e 2012, os automóveis de passeio saltaram de 25% para 75% do mix de vendas da marca.
Com todas as joint ventures somadas, a Dongfeng se tornou a segunda maior montadora chinesa em 2012, atrás apenas da Saic. Nessa mesma década, a empresa iniciou o desenvolvimento de veículos próprios, de olho nos incentivos governamentais para a indústria automotiva.
Parcerias que seguem ativas até hoje
As alianças internacionais nunca deixaram de ser centrais para o crescimento da companhia. A Dongfeng participou do desenvolvimento da plataforma e-CPM da Peugeot, usada nas versões elétricas do hatch 208. Já em 2025, a Nissan começou a testar no Brasil o sedã elétrico N7 e a picape híbrida Fronter PHEV — ambos produzidos pela marca chinesa.
A operação brasileira da DFM, no entanto, será inteiramente baseada em veículos de desenvolvimento próprio, como os já apresentados Box e Vigo.
Estratégia para o Brasil: até 11 modelos e três submarcas
Em conversa com Wang Jiong, CEO da DFM para as Américas, a Autoesporte revelou detalhes adicionais dos planos da montadora. Entre 2027 e 2028, serão lançados de três a cinco novos modelos, incluindo veículos das submarcas Voyah e MHero, que iniciam suas operações no país.
Voyah Courage: SUV elétrico de alcance global
O primeiro representante da Voyah no Brasil será o Courage. Trata-se de um SUV médio elétrico com 4,72 metros de comprimento, 1,90 m de largura, 1,63 m de altura e 2,90 m de entre-eixos. O peso em ordem de marcha oscila entre 2.099 kg e 2.227 kg. A motorização é exclusivamente elétrica, com opções de 292 cv ou 312 cv e baterias de até 109 kWh, proporcionando autonomia de 901 km no padrão CLTC.
O Courage já é comercializado em outros mercados asiáticos e também na Europa. Sua identidade visual moderna conta com design assinado pelo renomado estúdio italiano ItalDesign.
MHero 2: o jipão com DNA militar
A submarca MHero, criada em 2022 com foco em utilitários esportivos de luxo com visual robusto e inspiração militar, é chamada de “Hummer chinesa”. O MHero 2 (também conhecido como M817) foi lançado em 2025 e impressiona pelo porte: 5,10 metros de comprimento, 1,99 m de largura, 1,89 m de altura e 3,05 m de entre-eixos.
Na China, o SUV é oferecido em versões híbrida plug-in (PHEV) e híbrida em série (REEV), com potência que pode chegar a 686 cv ou 925 cv. A submarca passa por um processo de expansão global.
DFM Mage: ousadia em forma de SUV
O DFM Mage, vendido no exterior como Aeolus Haohan, está prestes a iniciar o processo de homologação no Brasil. Suas dimensões são de 4,65 metros de comprimento, 1,90 m de largura, 1,63 m de altura e 2,77 m de entre-eixos. A plataforma DSMA é compartilhada com outros SUVs da empresa, e o conjunto híbrido PHEV acompanha o modelo. Em alguns mercados, há ainda versões com sistema híbrido pleno (HEV), que dispensa recarga externa.
O visual do Mage aposta em maçanetas escamoteáveis, faróis estreitos e pontiagudos e para-choque com estilo esportivo. Dentro da cabine, a central multimídia em posição vertical e o console central elevado conferem modernidade ao painel.
MHero 1 e DFM Huge: os próximos da fila
Devem completar a lista o MHero 1 e possivelmente o DFM Huge. O MHero 1, também chamado de M917, tem linguagem de design com forte inspiração militar. Disponível em versões elétrica e REEV (híbrido em série), entrega mais de 1.000 cv de potência e 505 km de autonomia. Suas medidas são: 4,98 metros de comprimento, 2,08 m de largura, 1,93 m de altura e 2,95 m de entre-eixos.
O Huge, vendido em alguns mercados sob a bandeira da submarca Aeolus, é um SUV médio com motorização híbrida plug-in (PHEV). Mede 4,72 metros de comprimento, 1,91 m de largura, 1,70 m de altura e 2,82 m de entre-eixos. Sob o capô, combina um motor 1.5 turbo a gasolina com uma máquina elétrica, totalizando 245 cv de potência e 55 kgfm de torque.
Produção local e negociações em andamento
Os demais modelos apresentados pela DFM devem chegar até o encerramento de 2028. É também nesse ano que a empresa planeja ter produção plena no Brasil. As negociações em curso envolvem as fábricas da Nissan em Resende (RJ) e da Stellantis em Porto Real (RJ). Vale destacar que os chineses já são parceiros globais das duas montadoras, o que facilita o diálogo.
Com uma trajetória que vai de caminhões militares nos anos 1950 a SUVs elétricos de última geração, a Dongfeng Motor aposta na experiência acumulada em décadas de joint ventures com gigantes como Honda, Nissan e Peugeot para conquistar espaço em um dos mercados mais competitivos da América do Sul.



