Japão e Mercosul negociam acordo que pode tornar carros japoneses mais baratos no Brasil
Japão busca acordo com o Mercosul para reduzir tarifas sobre carros e autopeças japonesas, além de garantir acesso a petróleo e minerais estratégicos.
Tratado de parceria econômica busca reduzir tarifas sobre veículos e autopeças, além de garantir acesso a petróleo e minerais estratégicos
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, pode oficializar durante a cúpula do G7, na França, o início de conversas formais com líderes sul-americanos sobre um amplo acordo comercial. Encontros com os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Javier Milei, estão no radar. A informação foi publicada pelo jornal japonês Nikkei, que destaca o setor automotivo como uma das prioridades centrais da negociação.
Tarifas elevadas ameaçam competitividade de montadoras japonesas
Montadoras como Toyota, Honda e Nissan enfrentam atualmente tarifas médias superiores a 13% em mercados como Brasil e Argentina. O cenário preocupa o governo japonês, sobretudo após a implementação provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia, que concede vantagens tarifárias a grupos europeus como Volkswagen, Stellantis e Renault.
Sem um tratado equivalente, as fabricantes japonesas correm o risco de perder espaço em um dos mercados automotivos mais relevantes fora dos grandes centros tradicionais. A proposta do Japão é justamente equiparar as condições competitivas, reduzindo as barreiras tarifárias sobre carros e autopeças exportados para a América do Sul.
Fluxo comercial automotivo é de mão única
Um dado revela o desequilíbrio atual nas trocas entre os dois lados: nenhum veículo produzido no Mercosul é exportado ao Japão. O caminho inverso, porém, é ativo — modelos de marcas japonesas, incluindo veículos da Lexus e Subaru, continuam chegando a países sul-americanos via importação.
Petróleo brasileiro como alternativa ao Oriente Médio
A questão energética é outro pilar das negociações. O Japão depende do Oriente Médio para cerca de 90% do petróleo bruto que consome e sofreu impactos recentes por conta de interrupções no Estreito de Ormuz. Diante dessa vulnerabilidade, o Brasil passou a ser encarado como fornecedor estratégico.
Durante uma visita a Tóquio, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, afirmou que a Petrobras está pronta para ampliar exportações ao mercado japonês. A declaração reforça o interesse mútuo em diversificar as fontes de abastecimento.
Minerais críticos e a corrida por independência da China
Baterias e veículos eletrificados exigem minerais que hoje o Japão obtém majoritariamente da China, como as terras raras. O Brasil abriga uma das maiores reservas mundiais desses materiais, enquanto a Argentina se posiciona como uma das principais produtoras globais de lítio. Garantir acesso a esses recursos é considerado estratégico pelo governo japonês para reduzir sua dependência de Pequim.
Resistência histórica e mudança de postura
As conversas entre Mercosul e Japão não são novidade. Há anos o tema é debatido, mas esbarrava na resistência do setor agrícola japonês, particularmente preocupado com a importação de carne bovina sul-americana. A recente crise energética, contudo, alterou o cálculo político em Tóquio, tornando o acordo prioritário.
A expectativa é que as negociações comecem formalmente a partir de junho. Para a indústria automotiva japonesa, a urgência cresceu diante da entrada em vigor do tratado Mercosul-União Europeia, que já confere vantagens concretas às concorrentes europeias na região.
