Citroën e Peugeot podem ter os dias contados no Brasil: plano da Stellantis ignora marcas francesas
Plano de US$ 70 bilhões da Stellantis até 2030 ignora Citroën e Peugeot no Brasil, sinalizando possível descontinuação gradual das marcas francesas no país
Plano estratégico de US$ 70 bilhões da Stellantis até 2030 não traz nenhuma menção às duas marcas francesas no mercado brasileiro
Nenhuma palavra sobre Citroën. Nenhuma linha sobre Peugeot. Quando a Stellantis apresentou ao mercado seu plano de investimentos de US$ 70 bilhões — cerca de R$ 350 bilhões — para o Brasil, os slides dedicados ao país simplesmente não incluíram as duas marcas francesas em qualquer etapa do cronograma até 2030. A omissão acendeu um alerta sobre o futuro de ambas em território nacional.
Dez novos produtos, mas todos de Fiat, Jeep e Ram
O pacote divulgado pela montadora contempla dez produtos inteiramente novos, além da adoção da plataforma STLA Medium e de uma inédita motorização híbrida plena (HEV) flex. O cardápio inclui uma nova geração do Fiat Argo, três SUVs Fiat (novos Pulse, Fastback e um modelo inédito de sete lugares), renovação dos Jeep Renegade, Compass e Commander, e novas gerações das picapes Fiat Strada, Fiat Toro e Ram Rampage.
Tudo concentrado em três marcas. Nada para Citroën ou Peugeot.
Queda persistente nas vendas mesmo com portfólio renovado
Não se trata de marcas abandonadas pelo grupo nos últimos anos. Pelo contrário: ambas receberam investimentos consideráveis recentemente. A Citroën renovou sua gama com os novos C3, Aircross e Basalt. A Peugeot trocou de geração o 208 e estreou o novo 2008 em 2024. Ainda assim, a resposta do consumidor brasileiro não veio na intensidade esperada.
Depois de atingir os melhores resultados em mais de uma década em 2022, as duas voltaram a perder participação. O avanço das concorrentes chinesas acentuou a erosão nos últimos três anos. Veja o histórico:
Participação de Citroën e Peugeot no mercado brasileiro
- 2026 — Citroën: 1,24% | Peugeot: 0,72%
- 2025 — Citroën: 1,56% | Peugeot: 0,91%
- 2024 — Citroën: 1,36% | Peugeot: 1,13%
- 2022 — Citroën: 1,64% | Peugeot: 2,13%
- 2019 — Citroën: 1% | Peugeot: 0,81%
- 2014 — Citroën: 1,62% | Peugeot: 1,22%
- 2010 — Citroën: 2,52% | Peugeot: 2,71%
- 2005 — Citroën: 1,68% | Peugeot: 3,28%
Legado negativo parece ser barreira intransponível
Mesmo compartilhando a plataforma e os motores 1.0 Firefly e 1.0 Turbo 200 utilizados pela Fiat, Citroën e Peugeot carregam um histórico que pesa contra elas: falta de confiabilidade, má reputação no pós-venda e forte desvalorização no mercado de usados. Esses fatores, combinados, parecem ter formado uma barreira que a renovação de portfólio não conseguiu transpor.
Concessionários já sentem a falta de perspectiva
A Autoesporte apurou que, entre concessionários, a sinalização implícita é a de falta de perspectiva de novos produtos e descontinuação gradual das operações. Os contratos da rede de revendedores são bastante restritivos e preveem indenizações altíssimas em caso de rescisão antecipada. Por isso, a tendência seria a Stellantis oferecer a representação de outras marcas do grupo, como a chinesa Leapmotor, em substituição gradual.
Segundo fontes, a montadora já estaria oferecendo a alguns grupos de lojistas a possibilidade de suspender a representação de Citroën e Peugeot por até três anos, liberando os espaços para operações de outras marcas nesse intervalo. Ao final do prazo, o concessionário decidiria se retoma a bandeira ou encerra o contrato definitivamente, recebendo as compensações financeiras devidas.
Fiat vai usar a mesma plataforma de Citroën e Peugeot — e brigar na mesma faixa de preço
Outro elemento agrava o cenário das francesas. A partir deste ano, a Stellantis lançará os dois primeiros produtos Fiat e Jeep no Brasil baseados na plataforma CMP — a mesma já utilizada por Citroën e Peugeot. Os novos Fiat Argo, Pulse, Fastback e o inédito SUV de sete lugares (estes dois últimos derivados do projeto europeu Grizzly) compartilharão a estrutura do C3, Basalt e Aircross, com faixas de preço semelhantes. Manter tantos carros concorrendo internamente não faz sentido estratégico.
Dongfeng negocia uso da fábrica de Porto Real
Um sinal adicional veio de fora do grupo. Em participação no podcast CBN Autoesporte, que foi ao ar em 13 de maio, o diretor de operações da DFM (Dongfeng) no Brasil, Felipe Amaral de Souza, confirmou conversas com a Stellantis para compartilhar o uso da fábrica de Porto Real (RJ), onde atualmente são produzidos os três modelos nacionais da Citroën.
“As duas parcerias mais exitosas [da Dongfeng] na China [são com] Nissan e PSA [Peugeot e Citroën]. Então, naturalmente, esses parceiros já são quase que globais e conversas sempre vão existir. Ainda não está cravado, mas, sim, [a fábrica de Resende (RJ)] da Nissan é uma das opções. [A da Citroën em Porto Real (RJ)] é outra opção que a gente já olhou também”, revelou Felipe Amaral de Souza, diretor de operações da DFM no Brasil.
O fato de a Stellantis considerar dividir o complexo fluminense com outra montadora indica que não pretende manter os produtos da Citroën em linha naquela unidade por muito mais tempo. Além da fabricação do Jeep Avenger prevista para este ano, não há nenhum outro investimento planejado para o local.
Peugeot pode sobreviver graças à Argentina
Se o caminho da Citroën no Brasil parece já definido, a Peugeot vive uma situação ligeiramente diferente. A marca mantém força e produção consolidada na Argentina, o que pode garantir sua continuidade no mercado brasileiro como operação secundária — um complemento que ajuda a melhorar volumes de venda e produção na América do Sul.
Segundo o Autos Segredos, há em desenvolvimento uma futura geração regional do Peugeot 3008 cuja produção poderia ser destinada à Argentina. Contudo, até mesmo esse projeto fica sob dúvida, já que sequer foi mencionado no plano estratégico da Stellantis.
Posicionamento oficial da Stellantis
Em nota, a Stellantis afirma que “Citroën e Peugeot seguem como parte relevante da estratégia da companhia no Brasil e na América do Sul”. Sobre a Citroën, reforçou que “segue como parte relevante da estratégia da companhia no Brasil e na América do Sul”, e que “irá se beneficiar futuramente de plataformas, powertrain e tecnologias compartilhadas globalmente”. A íntegra do comunicado diz:
A Stellantis reforça que a Citroën e a Peugeot seguem como parte relevante da estratégia da companhia no Brasil e América do Sul, uma região prioritária para o grupo, que mantém investimentos consistentes em desenvolvimento de produtos, tecnologia e produção local.
Conforme apresentado hoje no Investor Day, a Citroën é uma marca regional que irá se beneficiar futuramente de plataformas, powertrain e tecnologias compartilhadas globalmente, ao mesmo tempo em que mantém sua identidade própria por meio de conteúdos específicos, ajustados às preferências e necessidades de cada mercado.
Vale destacar que, nos últimos anos, a Citroën passou por uma completa renovação do portfólio no Brasil, que incluem os lançamentos do Citroën C3, Citroën Aircross e Citroën Basalt, produzidos no Polo Automotivo Stellantis de Porto Real (RJ). Essa nova fase reforça o posicionamento da marca, com foco em produtos espaçosos, confortáveis e adequados às necessidades do consumidor local.

