Carros elétricos no Brasil: país pode escapar da desvalorização que atinge a Europa?
Executivos apontam que o Brasil pode escapar da desvalorização de elétricos usados vista na Europa ao entrar na eletrificação com tecnologia mais madura
Especialistas apontam que a chegada tardia da eletrificação ao mercado brasileiro pode ser uma vantagem competitiva para o valor de revenda
Modelos como BYD Dolphin Mini, Dolphin e Song Pro já figuram entre os eletrificados usados com maior liquidez no mercado nacional. Dados recentes da Indicata revelam que esses veículos, com até quatro anos de uso, apresentam giro acelerado de vendas, medidos pelo indicador Market Days Supply (MDS) — métrica que avalia a relação entre estoque e vendas. O Dolphin Mini registra MDS de 15,1 dias; o Dolphin, 15,8 dias; e o Song Pro, 17,9 dias. Quanto menor o índice, maior a facilidade de revenda.
A vantagem de chegar depois
Enquanto diversos países europeus enfrentam uma forte desvalorização de carros elétricos no mercado de usados, o Brasil parece trilhar um rumo distinto. A avaliação parte de executivos do setor automotivo que acompanham de perto o avanço da eletrificação globalmente. O argumento central é que o mercado brasileiro está ingressando na era dos veículos a bateria já com produtos tecnologicamente mais maduros, baterias mais confiáveis e autonomias superiores.
Lorena Castaldelli, executiva da Ayvens (antiga ALD Automotive), defende que o Brasil vive uma espécie de “segunda onda da eletrificação”. A declaração foi feita durante painel promovido pela Indicata sobre eletrificação automotiva e seus impactos no segmento de seminovos.
Lições da experiência europeia
Na Europa, boa parte dos consumidores teve contato com a primeira geração dos elétricos modernos ainda na década de 2010. Naquela época, autonomia limitada, degradação precoce da bateria e incertezas tecnológicas eram problemas recorrentes. Essa realidade alimentou uma percepção negativa sobre o valor de revenda dos modelos elétricos.
A situação se agravou nos últimos anos, quando cortes agressivos de preços em veículos novos e saltos rápidos de tecnologia fizeram com que modelos usados perdessem valor de forma acelerada. Para muitos consumidores europeus, o temor se tornou claro: adquirir um elétrico e vê-lo ficar obsoleto em poucos anos.
O cenário brasileiro é diferente
No Brasil, o consumidor está tendo contato majoritariamente com veículos lançados após 2020, já equipados com baterias de geração mais avançada e níveis superiores de confiabilidade. Essa diferença temporal em relação à Europa pode representar uma proteção natural contra a desvalorização acelerada observada no mercado europeu.
Os primeiros indicadores de revenda no país reforçam essa perspectiva. A velocidade com que modelos eletrificados usados estão sendo vendidos sugere uma demanda saudável e crescente.
Desafios permanecem no horizonte
Apesar dos sinais positivos, o mercado brasileiro não está automaticamente blindado contra os problemas enfrentados no exterior. Existem diferenças significativas de escala e maturidade entre os dois cenários. De acordo com avaliação apresentada pela Fenauto durante o evento da Indicata, os eletrificados ainda representam menos de 1% do mercado de seminovos no Brasil.
Esse percentual reduzido indica que o país ainda não passou por um verdadeiro teste de estresse na revenda de veículos elétricos em grande volume. Quando a participação desses modelos crescer de forma expressiva no mercado de usados, a real resistência à desvalorização poderá ser efetivamente medida.