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Elétricos

Governo zera imposto para cota de elétricos e híbridos desmontados e beneficia a BYD 

Gecex-Camex renova cotas com imposto zero para kits de elétricos e híbridos desmontados, beneficiando a BYD, enquanto Anfavea ameaça judicialização

AutoRodas 24 de junho de 2026 Atualizado em 24 de junho de 2026 4 min de leitura

Decisão renova cotas com alíquota zero para veículos CKD e SKD, mas provoca reação da Anfavea, que ameaça ir à Justiça para proteger R$ 140 bilhões em investimentos

A operação da BYD em Camaçari (BA) ganhou novo fôlego com a decisão tomada nesta terça-feira (23) pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex). O órgão aprovou a renovação das cotas de importação com imposto zero para veículos elétricos e híbridos desmontados, nos formatos CKD e SKD — medida que entra em vigor em julho.

Como funciona a nova cota e seus limites

O teto financeiro estabelecido para importação dos kits desmontados com alíquota zero é de US$ 463 milhões (aproximadamente R$ 2,4 bilhões). O montante é idêntico ao que vigorou entre agosto do ano passado e janeiro deste ano.

Quem ultrapassar esse limite estará sujeito ao cronograma original de elevação tarifária. No caso dos kits SKD, o imposto de importação sobe para 35% já em julho. Para os veículos CKD, a alíquota atinge os mesmos 35% em janeiro do próximo ano. Até lá, os kits CKD que excederem a cota serão tributados em 14%.

Carros montados ficam fora do benefício

Diferentemente dos veículos desmontados, a importação de carros elétricos e híbridos já montados não teve o benefício renovado. A tarifa cheia de 35% passa a incidir sobre esses modelos a partir de 1º de julho, conforme já estava previsto. A medida tende a encarecer os importados assim que os estoques atuais se esgotarem, incentivando a montagem local.

A GWM, por exemplo, já sinaliza que os Haval H6 montados no Brasil terão custo mais baixo do que os vindos da China.

O fator Camaçari e a estratégia da BYD

Interlocutores do governo apontam que a maior beneficiada pela decisão será a BYD, que mantém operação de montagem a partir de kits SKD (carros semidesmontados) na fábrica baiana. A fabricante chinesa ainda não se pronunciou oficialmente sobre a renovação aprovada pelo Gecex.

Seu vice-presidente, Alexandre Baldy, já havia argumentado que o prazo adicional de seis meses estava previamente alinhado com o governo. A justificativa da marca envolve a necessidade de tempo para concluir etapas de estamparia, pintura e soldagem em Camaçari, com inauguração de novas fases da planta prometida para o segundo semestre.

A importação de kits de carros desmontados para finalização no Brasil permite à fabricante utilizar contêineres convencionais, em vez de depender de navios específicos para o transporte de automóveis.

Anfavea reage e cogita ação judicial

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) reagiu com dureza. Em nota, a entidade classificou a alteração como intempestiva e afirmou que foi tomada sem consulta ao setor produtivo. Segundo a Anfavea, o prolongamento do benefício altera a política de transição pactuada no fim do ano passado e reduz os incentivos para atrair fornecedores locais de autopeças.

O presidente da associação, Igor Calvet, chegou a afirmar, um dia antes da decisão oficial, que a entidade estuda ir à Justiça contra a criação das novas cotas. A Anfavea defende que a mudança repentina de rumo coloca em risco a viabilidade de parte dos R$ 140 bilhões em investimentos prometidos pela indústria automotiva até 2033.

Disputa entre montagem de kits e nacionalização plena

Fabricantes já instaladas no Brasil e que investem na nacionalização completa de seus veículos alegam falta de previsibilidade por parte do Governo Federal. A decisão consolida uma vantagem temporária para quem aposta na montagem de kits importados, em detrimento da produção local com fornecedores nacionais.

Entidades da indústria automotiva vinham tentando barrar a medida antes mesmo da reunião do Gecex-Camex.

Produção nacional de eletrificados em crescimento

Apesar da disputa, a produção nacional de veículos eletrificados já vinha respondendo aos estímulos da nova política. Os modelos produzidos no país representaram 25,9% das vendas do segmento em 2025. No acumulado até maio deste ano, o mercado atendido por eletrificados fabricados no Brasil cresceu 57% em relação ao mesmo período do ano anterior.

De um lado, o governo busca garantir a implantação de fábricas asiáticas com alívios fiscais temporários. De outro, as fabricantes já estabelecidas exigem a aplicação rigorosa do imposto para forçar a nacionalização imediata, evitando que o país sustente a montagem de componentes externos sem adensamento tecnológico local.