Funcionários da Tesla alertam sobre direção autônoma: “Não confie”
Ex-funcionários da Tesla revelam falhas graves no sistema de direção autônoma FSD e recomendam não confiar nas promessas de segurança de Elon Musk
Relatos internos revelam falhas graves no FSD enquanto Elon Musk promete autonomia total e expansão de robotáxis
Sete ex-analistas de dados da Tesla disseram à Reuters que jamais confiariam no FSD (Full Self-Driving) para conduzir seus próprios veículos. “Todos nós já vimos o sistema falhar”, declarou um deles. Outro garantiu que não entraria em um robotáxi da Tesla “nem que me pagassem”. Um engenheiro veterano de direção autônoma, que analisou dados de acidentes da empresa por anos, foi além e chamou as alegações de segurança de “mentiras”.
“Com certeza”, disse o engenheiro. “Não confie no Elon nesse assunto”.
O trabalho invisível dos “rotuladores de dados”
Em um escritório localizado em Utah, centenas de funcionários da Tesla assistem a vídeos capturados por veículos equipados com o recurso de direção autônoma completa. As imagens registram desde atropelamentos de gatos, cachorros e cervos até colisões mais corriqueiras. Em diversas ocasiões, os carros simplesmente não freiam antes do impacto. A velocidade permitida é frequentemente ultrapassada. Há registros, inclusive, de crianças brincando na rua que quase são atingidas.
Esses profissionais, conhecidos como “rotuladores de dados”, são responsáveis por treinar o software de assistência ao motorista da montadora, que opera com base em inteligência artificial. Eles anotam exemplos de direção correta e incorreta e encaminham os problemas identificados aos engenheiros encarregados de aprimorar o sistema.
Promessas de Musk versus realidade operacional
O CEO da Tesla, Elon Musk, sustenta que o FSD em breve tornará todos os Teslas totalmente autônomos. Entretanto, entrevistas conduzidas pela Reuters com nove ex-funcionários da empresa e um ex-engenheiro de direção autônoma revelam que a tecnologia continuou apresentando dificuldades nos últimos meses para executar manobras básicas — como evitar veículos de emergência ou parar diante de ônibus escolares que estão embarcando ou desembarcando alunos.
Apesar dessas falhas perigosas, Musk e outros executivos têm cada vez mais enfatizado a segurança do FSD, pressionando a Tesla a realizar demonstrações públicas da capacidade totalmente autônoma que o CEO promete aos investidores todos os anos há uma década. Entre essas demonstrações está um projeto piloto de robotáxi em Austin, Texas, lançado em junho passado com monitores de segurança humanos — alguns dentro dos carros e outros atuando remotamente.
Bastidores das demonstrações públicas
Conforme esses eventos se aproximavam, funcionários da Tesla trabalhavam longas horas mapeando rotas e treinando o software para reconhecer perigos específicos. O objetivo, segundo quatro ex-funcionários ouvidos pela Reuters, era fazer com que a tecnologia de direção autônoma parecesse mais capaz do que realmente era. Os funcionários afirmaram que essas medidas de segurança, extremamente dependentes de mão de obra, são impossíveis de serem implementadas em larga escala.
Esses esforços, que não haviam sido divulgados anteriormente, minam a afirmação de longa data de Musk de que a tecnologia da Tesla funcionará em qualquer lugar do mundo sem necessitar do mesmo mapeamento local trabalhoso de estradas e perigos utilizado pelos concorrentes. O CEO sempre sustentou que a empresa adota uma abordagem mais simples, baseada exclusivamente em câmeras e inteligência artificial, capaz de expandir seu serviço de robotáxis em velocidade “hiperexponencial” e oferecer autonomia total aos atuais proprietários de Tesla por meio de atualizações de software.
Estatísticas de segurança sob questionamento
Musk e outros líderes da Tesla reforçaram a impressão de competência robótica citando estatísticas de segurança da empresa que, segundo eles, comprovam que o FSD já é até 10 vezes mais seguro do que motoristas humanos.
Uma análise da Reuters sobre a metodologia estatística da montadora e entrevistas com funcionários revelam, no entanto, que a Tesla ainda está longe de conseguir entregar veículos autônomos em larga escala com segurança — promessa central que sustenta o valor de mercado de US$ 1,6 trilhão da empresa.
A investigação abrangeu um estudo sobre como a Tesla compara seus próprios dados de acidentes com os dados federais; uma revisão da metodologia comparativamente rigorosa empregada pela Waymo, concorrente no setor de robotáxis; e entrevistas com 11 pesquisadores de segurança no trânsito que examinaram a metodologia da Tesla para a Reuters.
Comparações de dados consideradas inválidas
A revisão identificou diversas comparações de dados inválidas que fundamentam as estatísticas do relatório de segurança do FSD da Tesla. Segundo 10 dos pesquisadores consultados, o que a empresa apresenta configura marketing enganoso em vez de uma investigação séria sobre uma questão crítica de segurança.
A Tesla, por exemplo, exagera a segurança da tecnologia ao comparar a taxa de acidentes em veículos com FSD que acionaram os airbags com a taxa federal de acidentes para todos os veículos — que inclui acidentes muito menos graves. Além disso, a empresa compara seus carros com um veículo médio dos EUA, que é muito mais antigo do que um Tesla médio. Isso distorce os resultados porque todas as montadoras lançaram recentemente novos recursos de segurança que reduzem os acidentes, conforme explicaram os pesquisadores.
“Qualquer carro novo é dramaticamente mais seguro do que um carro de 12 anos”, disse Phil Koopman, professor de engenharia da Universidade Carnegie Mellon e especialista em segurança de veículos autônomos. “É como dizer: ‘Meu avião a jato é mais rápido do que seu bombardeiro da Segunda Guerra Mundial’. Pois é, qual é o seu ponto?”
A Tesla não respondeu às perguntas detalhadas da Reuters para esta reportagem.
Declarações de executivos e acionistas
O diretor financeiro da Tesla, Vaibhav Taneja, fez a afirmação de que os veículos eram 10 vezes mais seguros em julho passado, após o lançamento do robotáxi em Austin. A presidente do Conselho da Tesla, Robyn Denholm, repetiu a afirmação em uma reunião de novembro, na qual os acionistas aprovaram um pacote de remuneração que concede a Musk até US$ 1 trilhão em ações da empresa. Na mesma reunião, Musk exibiu um gráfico com a afirmação um pouco mais modesta de “85% menos acidentes”, com base em uma metodologia da Tesla recentemente revisada.
“Quase nos sentimos confortáveis em permitir que as pessoas enviem mensagens de texto enquanto dirigem, o que é o nosso grande diferencial”, disse Musk aos acionistas. “Nos próximos um ou dois meses – vamos analisar atentamente as estatísticas de segurança – mas, essencialmente, permitiremos que você envie mensagens de texto enquanto dirige.”
Seis meses depois, a Tesla ainda não aprovou o recurso de mensagens de texto ao volante com o FSD. As letras miúdas em seu site sobre o FSD continuam alertando: “Os recursos atualmente ativados exigem supervisão ativa do motorista e não tornam o veículo autônomo”. A Tesla frequentemente cita essas ressalvas quando processada por acidentes graves.
Autonomia total: um objetivo ainda distante
A tecnologia FSD é amplamente considerada capaz de lidar com diversas situações de direção, às vezes por longos períodos. Contudo, a autonomia total tem se mostrado um objetivo difícil de alcançar tanto para a Tesla quanto para outras empresas, pois exige execução impecável da tecnologia — inclusive nos cenários de direção mais complexos.
“Equipe de trauma” e os registros de quase acidentes
Os responsáveis pela rotulagem de dados obtêm uma visão detalhada das capacidades do FSD ao analisarem imagens de veículos equipados com oito câmeras externas. Ex-funcionários relataram ter visto o sistema falhar regularmente em tarefas básicas, como dar passagem a veículos de emergência e manter distância segura de motociclistas.
Em algumas ocasiões, veículos com o FSD ativo não conseguiam frear em saídas de rodovias — um caso incluiu um Tesla que bateu em uma parede de concreto. As imagens, segundo os ex-funcionários, não mostravam se alguém se feriu. Dois funcionários relataram ainda vídeos em que o FSD falhava ao tentar evitar zonas de construção. Em um desses incidentes, um Tesla entrou na zona e quase atropelou trabalhadores, segundo uma das pessoas.
A Reuters não analisou os vídeos; o relato baseia-se nas descrições das imagens feitas pelos ex-funcionários. Dentro da Tesla, os gerentes controlavam cuidadosamente o acesso a essas informações.